<$BlogRSDURL$>

novembro 30, 2004

Da sedução dos anjos 



Não podia ser mais oportuno, este poema..

Quando acabamos de saber que a Assembleia da República vai ser dissolvida..

E que vamos para eleições!

Quem é que disse que os anjos não têm sexo?!

Respeitosamente, o Senhor Presidente acaba de nos enrabar a todos...

Passivos incluídos..



Posted by Hello The Charnel-House

Anjos seduzem-se: nunca ou a matar.
Puxa-o só para dentro de casa e mete-
-Lhe a língua na boca e os dedos sem frete
Por baixo da saia até se molhar
Vira-o contra a parede, ergue-lhe a saia
E fode-o. Se gemer, algo crispado
Segura-o bem, fá-lo vir-se em dobrado
P'ra que do choque no fim te não caia.

Exorta-o a que agite bem o cu
Manda-o tocar-te os guizos atrevido
Diz que ousar na queda lhe é permitido
Desde que entre o céu e a terra flutue –

Mas não o olhes na cara enquanto fodes
E as asas, rapaz, não lhas amarrotes.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Etiquetas: , ,


Read more!

novembro 29, 2004

Mar de Setembro 



Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
Fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves, só
alma e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto,
puríssimo, doirado.


Eugénio de Andrade, 1961

Read more!

novembro 28, 2004

boas acções! 

Ao domingo, como habitualmente, é dia de pagar o dízimo..
A esta boa acção, hoje consegui juntar uma segunda, quando vi um cavalheiro com uma pilha de livros que mal conseguia segurar; abordei-o e disse: "O amigo vai deslocar hoje essa montanha?", ao que ele, meio surpreso, retorquiu: " há algum impedimento?".
Sorri, e disse-lhe para não me interpretar mal, mas que faria melhor negócio se voltasse depois de amanhã dia 30, que é o dia do aderente, onde podia comprar todos aqueles livros com 10% de desconto...
Sorriu e disse: "sabe que já me tinha livrado de outros tantos? Vou imediatamente rever a minha lista de compras de natal e seguir a sua sugestão, obrigado!".
Porque aquela voz me era familiar da rádio, e sei que ele escreve num blog, era engraçado que ele lesse este post... quem sabe!

De seguida, dei com o livro do Barnabé!
Folheei-o e lembrei-me imediatamente de O Meu Pipi.. oferecido por uma amiga - 8ª edição!!!
Não recomendo nenhum dos dois..
Um milhão de vezes o 1º Ano de Inimigo Público..
A metade do preço, e muito mais divertido que os anteriores!

Agora, vou corrigir um erro de avaliação.. já volto!

Read more!

era para ser um comentário.. 

mas, uma vez que não consegui comentar esta posta da Grande Loja.. presumo que por dificuldades técnicas.. cá vai:

Nós precisamos é de Iluminar o natal às pessoas, sim senhor!
Até porque quem pagou a arvorezinha foi um banco e um canal de televisão privados..
Ainda que seja a edilidade a pagar a factura à EDP(!), é com o dinheiro dos munícipes.. lisboetas!
Do que nós não precisamos é da demagogia de afirmar que todo aquele desperdício daria para iluminar o natal às pessoas de vila nova da cafeteira..
Do que nós precisamos é que os caciques locais se mexam!


Boas Festas!


Read more!

Winston Churchill - II 



Graças à notoriedade adquirida enquanto correspondente de guerra do Morning Post na Guerra dos Bóeres - África do Sul, Winston Churchill tornou-se deputado pelo Partido Conservador, em 1900.


Após mudar para o Partido Liberal, quatro anos mais tarde, chegou a Secretário de Estado e mais tarde a Ministro. Em 1911, tornou-se Primeiro Lorde do Almirantado.
Sobre o receio das provocadoras intenções dos Alemães em atacarem a Armada Britânica, escreveu um dia, num misto de ingenuidade e esperança nos homens:

"Parecem tão cautelosas e correctas, aquelas palavras mortíferas. Vozes suaves, a murmurar frases urbanas, graves e ponderadas, com precisão, em grandes salões pacíficos.
Mas essa mesma Alemanha já abriu fogo com os seus canhões e já derrubou países com menos pré-aviso.
Por isso, agora, os telégrafos do Almirantado sussurram através do éter aos mastros altos dos navios, e os comandantes percorrem para trás e para diante o convés dos seus navios, absortos nos seus pensamentos.
Não é nada. É menos que nada. É demasiado absurdo, demasiado fantástico pensar-se tal no século XX.
Ou será fogo e morte a irromperem na escuridão e a saltarem-nos ao pescoço, serão torpedos a rasgar o ventre de navios meio-adormecidos, uma alvorada para uma supremacia naval que já não existe e para uma ilha, até agora bem guardada, finalmente indefesa?
Não, não é nada. Ninguém faria tais coisas. A civilização já superou tais perigos. A interdependência das nações ao nível das relações e trocas comerciais, o sentido do direito público, a Convenção de Haia. Os princípios Liberais, o Partido Trabalhista, a alta finança, a caridade cristã, o bom senso tornaram impossíveis tais pesadelos.
Têm mesmo a certeza? Seria uma pena enganarmo-nos. Um erro desses só poderia ser cometido uma vez - de uma vez por todas."



Read more!

novembro 27, 2004

O último legado?! 

Wheat Field Under Threatening Skies é uma das mais poderosas e também uma das mais discutidas obras de Van Gogh!
Vista como um prenúncio de suicídio por alguns, mais positivista por outros.

Sobre esta tela, disse:
"São vastos campos de trigo debaixo de céus agitados, e eu não necessitei abandonar o meu estilo para tentar expressar a tristeza e solidão extremas.."


clique na imagem para ampliar

Vincent Van Gogh
Wheat Field Under Threatening Skies - 1890
Óleo sobre tela - 50.5 x 100.5 cm
Vincent Van Gogh Museum, Amsterdam


Read more!

novembro 26, 2004

passagem das horas 

Hoje, o dia amanheceu por volta das nove e meia! E não tem hora marcada, o entardecer!
Para ir lendo, calmamente, para sentir.. demais.. de menos..
Para me inquietar...



Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,
O coral das Maldivas em passagem cálida,
Macau à uma hora da noite... Acordo de repente...
Yat-lô--ô-ôôô-ô-ô-ô-ô-ô-ô...Ghi-...
E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade...
A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol...
Dar-es-Salaam (a saída é difícil)...
Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagascar...
Tempestades em torno ao Guardafui...
E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada...
E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo...

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranquila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consanguinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contactos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cómoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão,
Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra.
Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos.
Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir...
Tão decadente, tão decadente, tão decadente...
Só estou bem quando ouço música, e nem então.
Jardins do século dezoito antes de 89,
Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?

Como um bálsamo que não consola senão pela ideia de que é um bálsamo,
A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.

Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.
Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.
Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.
Estou no caminho de todos e esbarram comigo.
Minha quinta na província,
Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.
Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir,
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...

Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as acções, a banalidade dos trabalhos,
Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver.
Só assim, ó noite, e eu nunca poderei ser assim!

Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.

Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti.
Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito,
Mágoa externa na Terra, choro silencioso do Mundo.
Mãe suave e antiga das emoções sem gesto,
Irmã mais velha, virgem e triste, das ideias sem nexo,
Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos,
A direcção constantemente abandonada do nosso destino,
A nossa incerteza pagã sem alegria,
A nossa fraqueza cristã sem fé,
O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,
A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,
A nossa vida, ó mãe, a nossa perdida vida...

Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,
Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,
Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,
Uni a razão para descansar, uma necessidade de me distrair,
Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim.

Por isso sê para mim materna, ó noite tranquila...
Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz,
Tu que não existes, que és só a ausência da luz,
Tu que não és uma coisa, rim lugar, uma essência, uma vida,
Penélope da teia, amanhã desfeita, da tua escuridão,
Circe irreal dos febris, dos angustiados sem causa,
Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,
E sê fresco e alívio, ó noite, sobre a minha fronte...
Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento,
Cujo fluxo e refluxo de treva, quando a lua bafeja,
Tem ondas de carinho morto, frio de mares de sonho,
Brisas de paisagens supostas para a nossa angústia excessiva...
Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente,
Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens,
Tu, rainha, tu, castelã, tu, dona pálida, vem...

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma ideia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.
Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,
(No mesmo abraço comovido)
O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,
O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,
E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,
O ladrão de estradas, o salteador dos mares,
O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas —
Todos são a minha amante predilecta pelo menos um momento na vida.

Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
Tudo é a razão de ser da minha vida.

Cometi todos os crimes,
Vivi dentro de todos os crimes
(Eu próprio fui, não um nem o outro no vício,
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,
E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.

Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
E todos os pederastas - absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!

(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,
Os seus half-holidays inesperados...
Mary, eu sou infeliz...
Freddie, eu sou infeliz...
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fôsseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!

Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,
E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim ...
Meu coração tribunal, meu coração mercado,
Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
Meu coração banco de jardim público, hospedaria,
Estalagem, calabouço número qualquer coisa
(Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)
Meu coração clube, sala, plateia, capacho, guichet, portaló,
Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,
Meu coração postigo,
Meu coração encomenda,
Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,
Meu coração à margem, o lirrite, a súmula, o índice,
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.

Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.

(Aquela cujo sorriso sugere a paz que eu não tenho,
Em cujo baixar-de-olhos há uma paisagem da Holanda,
Com as cabeças femininas coiffées de lin
E todo o esforço quotidiano de um povo pacífico e limpo...
Aquela que é o anel deixado em cima da cómoda,
E a fita entalada com o fechar da gaveta,
Fita cor-de-rosa, não gosto da cor mas da fita entalada,
Assim como não gosto da vida, mas gosto de senti-la ...

Dormir como um cão corrido no caminho, ao sol,
Definitivamente para todo o resto do Universo,
E que os carros me passem por cima.)

Fui para a cama com todos os sentimentos,
Fui souteneur de todas as emoções,
Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações,
Troquei olhares com todos os motivos de agir,
Estive mão em mão com todos os impulsos para partir,
Febre imensa das horas!
Angústia da forja das emoções!
Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço,
A cadela a uivar de noite,
O tanque da quinta a passear à roda da minha insónia,
O bosque como foi à tarde, quando lá passeamos, a rosa,
A madeixa indiferente, o musgo, os pinheiros,
Toda a raiva de não conter isto tudo, de não deter isto tudo,
Ó fome abstracta das coisas, cio impotente dos momentos,
Orgia intelectual de sentir a vida!

Obter tudo por suficiência divina —
As vésperas, os consentimentos, os avisos,
As coisas belas da vida —
O talento, a virtude, a impunidade,
A tendência para acompanhar os outros a casa,
A situação de passageiro,
A conveniência em embarcar já para ter lugar,
E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, uma frase,
E a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa.

Poder rir, rir, rir despejadamente,
Rir como um copo entornado,
Absolutamente doido só por sentir,
Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,
Ferido na boca por morder coisas,
Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,
E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida.

Sentir tudo de todas as maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
E amar as coisas como Deus.

Eu, que sou mais irmão de uma árvore que de um operário,
Eu, que sinto mais a dor suposta do mar ao bater na praia
Que a dor real das crianças em quem batem
(Ah, como isto deve ser falso, pobres crianças em quem batem —
E por que é que as minhas sensações se revezam tão depressa?)
Eu, enfim, que sou um diálogo contínuo,
Um falar-alto incompreensível, alta-noite na torre,
Quando os sinos oscilam vagamente sem que mão lhes toque
E faz pena saber que há vida que viver amanhã.
Eu, enfim, literalmente eu,
E eu metaforicamente também,
Eu, o poeta sensacionista, enviado do Acaso
As leis irrepreensíveis da Vida,
Eu, o fumador de cigarros por profissão adequada,
O indivíduo que fuma ópio, que toma absinto, mas que, enfim,
Prefere pensar em fumar ópio a fumá-lo
E acha mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo...
Eu, este degenerado superior sem arquivos na alma,
Sem personalidade com valor declarado,
Eu, o investigador solene das coisas fúteis,
Que era capaz de ir viver na Sibéria só por embirrar com isso,
E que acho que não faz mal não ligar importância à pátria
Porque não tenho raiz, como uma árvore, e portanto não tenho raiz
Eu, que tantas vezes me sinto tão real como uma metáfora,

Como uma frase escrita por um doente no livro da rapariga que encontrou no terraço,
Ou uma partida de xadrêz no convés dum transatlântico,
Eu, a ama que empurra os perambulators em todos os jardins públicos,
Eu, o polícia que a olha, parado para trás na álea,
Eu, a criança no carro, que acena à sua inconsciência lúcida com um coral com guizos.
Eu, a paisagem por detrás disto tudo, a paz citadina
Coada através das árvores do jardim público,
Eu, o que os espera a todos em casa,
Eu, o que eles encontram na rua,
Eu, o que eles não sabem de si próprios,
Eu, aquela coisa em que estás pensando e te marca esse sorriso,
Eu, o contraditório, o fictício, o aranzel, a espuma,
O cartaz posto agora, as ancas da francesa, o olhar do padre,
O largo onde se encontram as suas ruas e os chauffeurs dormem contra os carros,
A cicatriz do sargento mal encarado,
O sebo na gola do explicador doente que volta para casa,
A chávena que era por onde o pequenito que morreu bebia sempre,
E tem uma falha na asa (e tudo isto cabe num coração de mãe e enche-o)...
Eu, o ditado de francês da pequenita que mexe nas ligas,
Eu, os pés que se tocam por baixo do bridge sob o lustre,
Eu, a carta escondida, o calor do lenço, a sacada com a janela entreaberta,
O portão de serviço onde a criada fala com os desejos do primo,
O sacana do José que prometeu vir e não veio
E a gente tinha uma partida para lhe fazer...
Eu, tudo isto, e além disto o resto do mundo...
Tanta coisa, as portas que se abrem, e a razão por que elas se abrem,
E as coisas que já fizeram as mãos que abrem as portas...
Eu, a infelicidade-nata de todas as expressões,
A impossibilidade de exprimir todos os sentimentos,
Sem que haja uma lápide no cemitério para o irmão de tudo isto,
E o que parece não querer dizer nada sempre quer dizer qualquer cousa...

Sim, eu, o engenheiro naval que sou supersticioso como uma camponesa madrinha,
E uso monóculo para não parecer igual à ideia real que faço de mim,
Que levo às vezes três horas a vestir-me e nem por isso acho isso natural,
Mas acho-o metafísico e se me batem à porta zango-me,
Não tanto por me interromperem a gravata como por ficar sabendo que há a vida...
Sim, enfim, eu o destinatário das cartas lacradas,
O baú das iniciais gastas,
A entoação das vozes que nunca ouviremos mais -
Deus guarda isso tudo no Mistério, e às vezes sentimo-lo
E a vida pesa de repente e faz muito frio mais perto que o corpo.
A Brígida prima da minha tia,
O general em que elas falavam - general quando elas eram pequenas,
E a vida era guerra civil a todas as esquinas...
Vive le mélodrame où Margot a pleuré!
Caem as folhas secas no chão irregularmente,
Mas o fato é que sempre é outono no outono,
E o inverno vem depois fatalmente,
há só um caminho para a vida, que é a vida...

Esse velho insignificante, mas que ainda conheceu os românticos,
Esse opúsculo político do tempo das revoluções constitucionais,
E a dor que tudo isso deixa, sem que se saiba a razão
Nem haja para chorar tudo mais razão que senti-lo.

Viro todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,
E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.
Não me subordino senão por atavismo,
E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.

Das serrasses de todos os cafés de todas as cidades
Acessíveis à imaginação
Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,
Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,
Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.

No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa,
Vou ao lado dela sem ela saber.
No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado,
Mas antes de o encontro deles lá estar já eu estava com eles lá.
Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me,
Não há modo de eu não estar em toda a parte.
O meu privilégio é tudo
(Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh'Alma).

Assisto a tudo e definitivamente.
Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim,
Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira,
Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso,
Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinquenta
Que não seja para mim por uma galantaria deposta.

Fui educado pela Imaginação,
Viajei pela mão dela sempre,
Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,
E todos os dias têm essa janela por diante,
E todas as horas parecem minhas dessa maneira.

Cavalgada explosiva, explodida, como uma bomba que rebenta,
Cavalgada rebentando para todos os lados ao mesmo tempo,
Cavalgada por cima do espaço, salto por cima do tempo,
Galga, cavalo electron-ion, sistema solar resumido
Por dentro da acção dos êmbolos, por fora do giro dos volantes.
Dentro dos êmbolos, tornado velocidade abstrata e louca,
Ajo a ferro e velocidade, vaivém, loucura, raiva contida,
Atado ao rasto de todos os volantes giro assombrosas horas,
E todo o universo range, estraleja e estropia-se em mim.

Ho-ho-ho-ho-ho!...
Cada vez mais depressa, cada vez mais com o espírito adiante do corpo
Adiante da própria ideia veloz do corpo projetado,
Com o espírito atrás adiante do corpo, sombra, chispa,
He-la-ho-ho ... Helahoho ...

Toda a energia é a mesma e toda a natureza é o mesmo...
A seiva da seiva das árvores é a mesma energia que mexe
As rodas da locomotiva, as rodas do elétrico, os volantes dos Diesel,
E um carro puxado a mulas ou a gasolina é puxado pela mesma coisa.

Raiva panteísta de sentir em mim formidavelmente,
Com todos os meus sentidos em ebulição, com todos os meus poros em fumo,
Que tudo é uma só velocidade, uma só energia, uma só divina linha
De si para si, parada a ciciar violências de velocidade louca...
Ho ----

Ave, salve, viva a unidade veloz de tudo!
Ave, salve, viva a igualdade de tudo em seta!
Ave, salve, viva a grande máquina universo!
Ave, que sois o mesmo, árvores, máquinas, leis!
Ave, que sois o mesmo, vermes, êmbolos, ideias abstratas,
A mesma seiva vos enche, a mesma seiva vos torna,
A mesma coisa sois, e o resto é por fora e falso,
O resto, o estático resto que fica nos olhos que param,
Mas não nos meus nervos motor de explosão a óleos pesados ou leves,
Não nos meus nervos todas as máquinas, todos os sistemas de engrenagem,
Nos meus nervos locomotiva, carro elétrico, automóvel, debulhadora a vapor

Nos meus nervos máquina marítima, Diesel, semi-Diesel,
Campbell, Nos meus nervos instalação absoluta a vapor, a gás, a óleo e a eletricidade,
Máquina universal movida por correias de todos os momentos!

Todas as madrugadas são a madrugada e a vida.
Todas as auroras raiam no mesmo lugar:
Infinito...
Todas as alegrias de ave vêm da mesma garganta,
Todos os estremecimentos de folhas são da mesma árvore,
E todos os que se levantam cedo para ir trabalhar
Vão da mesma casa para a mesma fábrica por o mesmo caminho...

Rola, bola grande, formigueiro de consciências, terra,
Rola, auroreada, entardecida, a prumo sob sóis, noturna,
Rola no espaço abstrato, na noite mal iluminada realmente
Rola ...

Sinto na minha cabeça a velocidade de giro da terra,
E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim,
Centrífuga ânsia, raiva de ir por os ares até aos astros
Bate pancadas de encontro ao interior do meu crânio,
Põe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpo,
Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstrato,
Para inencontrável, Ali sem restrições nenhumas,
A Meta invisível — todos os pontos onde eu não estou — e ao mesmo tempo ...

Ah, não estar parado nem a andar,
Não estar deitado nem de pé,
Nem acordado nem a dormir,
Nem aqui nem noutro ponto qualquer,
Resol,,,er a equação desta inquietação prolixa,
Saber onde estar para poder estar em toda a parte,
Saber onde deitar-me para estar passeando por todas as ruas ...

Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho

Cavalgada alada de mim por cima de todas as coisas,
Cavalgada estalada de mim por baixo de todas as coisas,
Cavalgada alada e estalada de mim por causa de todas as coisas ...

Hup-la por cima das árvores, hup-la por baixo dos tanques,
Hup-la contra as paredes, hup-la raspando nos troncos,
Hup-la no ar, hup-la no vento, hup-la, hup-la nas praias,
Numa velocidade crescente, insistente, violenta,
Hup-la hup-la hup-la hup-la ...

Cavalgada panteísta de mim por dentro de todas as coisas,
Cavalgada energética por dentro de todas as energias,
Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lâmpada que arde,
Clarim claro da manhã ao fundo
Do semicírculo frio do horizonte,
Ténue clarim longínquo como bandeiras incertas
Desfraldadas para além de onde as cores são visíveis ...

Clarim trémulo, poeira parada, onde a noite cessa,
Poeira de ouro parada no fundo da visibilidade ...

Carro que chia limpidamente, vapor que apita,
Guindaste que começa a girar no meu ouvido,
Tosse seca, nova do que sai de casa,
Leve arrepio matutino na alegria de viver,
Gargalhada súbita velada pela bruma exterior não sei como,
Costureira fadada para pior que a manhã que sente,
Operário tísico desfeito para feliz nesta hora
Inevitavelmente vital,
Em que o relevo das coisas é suave, certo e simpático,
Em que os muros são frescos ao contacto da mão, e as casas
Abrem aqui e ali os olhos cortinados a branco...

Toda a madrugada é uma colina que oscila,
...................................................................
... e caminha tudo

Para a hora cheia de luz em que as lojas baixam as pálpebras
E rumor tráfego carroça comboio eu sinto sol estruge

Vertigem do meio-dia emoldurada a vertigens —
Sol dos vértices e nos... da minha visão estriada,
Do rodopio parado da minha retentiva seca,
Do abrumado clarão fixo da minha consciência de viver.

Rumor tráfego carroça comboio carros eu sinto sol rua,
Aros caixotes trolley loja rua vitrines saia olhos
Rapidamente calhas carroças caixotes rua atravessar rua
Passeio lojistas "perdão" rua
Rua a passear por mim a passear pela rua por mim
Tudo espelhos as lojas de cá dentro das lojas de lá
A velocidade dos carros ao contrário nos espelhos oblíquos das montras,
O chão no ar o sol por baixo dos pés rua regas flores no cesto rua
O meu passado rua estremece camion rua não me recordo rua

Eu de cabeça pra baixo no centro da minha consciência de mim
Rua sem poder encontrar uma sensação só de cada vez rua
Rua pra trás e pra diante debaixo dos meus pés
Rua em X em Y em Z por dentro dos meus braços
Rua pelo meu monóculo em círculos de cinematógrafo pequeno,
Caleidoscópio em curvas iriadas nítidas rua.
Bebedeira da rua e de sentir ver ouvir tudo ao mesmo tempo.
Bater das fontes de estar vindo para cá ao mesmo tempo que vou para lá.
Comboio parte-te de encontro ao resguardo da linha de desvio!
Vapor navega direito ao cais e racha-te contra ele!
Automóvel guiado pela loucura de todo o universo precipita-te
Por todos os precipícios abaixo
E choca-te, truz!, esfrangalha-te no fundo do meu coração!

À moi, todos os objectos projéteis!
À moi, todos os objectos direções!
À moi, todos os objectos invisíveis de velozes!
Batam-me, trespassem-me, ultrapassem-me!
Sou eu que me bato, que me trespasso, que me ultrapasso!
A raiva de todos os ímpetos fecha em círculo-mim!

Hela-hoho comboio, automóvel, aeroplano minhas ânsias,
Velocidade entra por todas as ideias dentro,
Choca de encontro a todos os sonhos e parte-os,
Chamusca todos os ideais humanitários e úteis,
Atropela todos os sentimentos normais, decentes, concordantes,
Colhe no giro do teu volante vertiginoso e pesado
Os corpos de todas as filosofias, os tropos de todos os poemas,
Esfrangalha-os e fica só tu, volante abstrato nos ares,
Senhor supremo da hora europeia, metálico a cio.
Vamos, que a cavalgada não tenha fim nem em Deus!
...............................................................
...............................................................
...............................................................
...............................................................

Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,
Declina dentro de mim o sol no alto do céu.
Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.
Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?
Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata,
Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,
Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,
Calcar, calcar, calcar até não sentir.
Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,
Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.

Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos,
Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços,
Cavalgada vôo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago,
Cavalgada eu, cavalgada eu, cavalgada o universo — eu.
Helahoho-o-o-o-o-o-o-o ...

Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação ...


Álvaro de Campos, 22-5-1916


Read more!

novembro 25, 2004

código-fonte do dia 

<@n_to_nio/> style="lizard" Liedson_score_3 / Viana_score_1 color: #green; font-family: SCP">



Read more!

Winston Churchill - I 


Winston Churchill

Estas sábias palavras, diria premonitórias, são um exemplo claro do homem que foi Churchill:

"Gostaria de falar, hoje, do drama da Europa (...) Entre os vencedores só se ouve uma Babel de vozes. Entre os vencidos não encontramos mais do que silêncio e desespero (...) Existe um remédio que, se fosse adoptado global e espontaneamente, pela maioria dos povos dos numerosos países, poderia, como por milagre, tansformar por completo a situação e fazer toda a Europa, ou a maior parte dela, tão livre e feliz como a Suiça dos nossos dias. Qual é esse remédio soberano? Consiste em reconstituir a família europeia ou, pelo menos, enquanto não podemos reconstrui-la, dotá-la de uma estrutura que lhe permita viver e crescer em paz, em segurança e em liberdade. Devemos criar uma espécie de Estados Unidos da Europa. (...) Para realizar esta tarefa urgente, a França e a Alemanha devem reconciliar-se."

Winston Churchill
Discurso na Universidade de Zurique
19 de Setembro de 1946


Winston Churchill nasceu a 30 de Novembro de 1874 e faleceu 24 de Janeiro de 1965.
William Leonard S. Churchill era filho de Lord Randolph Churchill, sétimo conde de Malborough, e da norte-americana Jennie Jerome.
Sobre sua mãe, escreveu:
"A minha mãe brilhava para mim como uma estrela vespertina; gostava muito dela, mas à distância".

O seu contributo enquanto primeiro-ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial, foi decisivo para que, de forma quase unânime, ele tenha sido considerado o Homem do Milénio.
Até final do mês, data comemorativa do 130º aniversário do seu nascimento, serão aqui publicados alguns apontamentos sobre a vida e obra deste grande estadista.


Read more!

novembro 24, 2004

Para que não esqueçamos 


23 Nov 2004
REUTERS/Finbarr O'reilly


Menina sudanesa abraçada pela irmã em Abushouk, acampamento de refugiados perto de El Fasher - Darfur, onde tentam sobreviver mais de 45000 pessoas.
Todos os dias continuam a chegar novos deslocados, que fogem das suas aldeias.. e da morte!


Read more!

novembro 23, 2004

Enquanto longe divagas  



I

Enquanto longe divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
- Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por inomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
- Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombas
- Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado
- Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem toiro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba


II

O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono
É como ave no ar veloz detida
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso


III

Pois no ar estremece tua alegria
- Tua jovem riqueza de arbusto -
A luz espera teu perfil teu gesto
Teu ímpeto tua fuga e desafio
Tua inteligência tua argúcia teu riso

Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso

Sophia de Mello Breyner Andresen

Read more!

novembro 22, 2004

The truth is out there 

Os magníficos Denzel Washington e Meryl Streep dão corpo a um dos grandes filmes do cinema deste início de século - O Candidato da Verdade!



Deserto do Kuwait, 1991.
O Major Bennett Marco (Denzel Washington) viu o seu pelotão ser alvo de uma emboscada;
Foram salvos pelo Sargento Raymond Shaw (Liev Schreiber) , cujo acto heróico lhe conferiu a Medalha de Honra.
Dez anos volvidos, as suas memórias do deserto perseguem-no de forma aterradora.
Começa a interrogar-se se aquela sequência de acontecimentos teria de facto ocorrido assim, e se, em última análise, Shaw seria mesmo o herói!

Inicia então um processo de desconstrução, ainda mais sombrio que os seus fantasmas, que o conduz à sinistra mãe de Shaw, a incestuosa senadora Eleanor Shaw (Meryl Streep)!



O Major, veterano da Guerra do Golfo, consegue lutar contra a sua memória e começa a perceber que teria sido vítima - ele e todo o pelotão, de uma lavagem ao cérebro e que lhes teriam implantado chips, de modo a que fossem submetidos à vontade da sinistra Manchurian Global, uma poderosa organização que estava determinada a fabricar um presidente dos EUA.

A Senadora quer realizar um sonho.. interrompido pelo defunto marido, e tudo fará...
A Bem da Nação!



A paranóia e o terror político, presentes na actual cena política americana, conduzem-nos à questão da liberdade individual, garantida pelo poder da democracia, mas posta em cheque pelo poder económico.

Um excelente filme, de uma actualidade tal.. que nos faz pensar!

Etiquetas:


Read more!

Quantos pontos vale uma vitória? E um empate? 



Read more!

novembro 21, 2004

Números, ou Haverá Vida para além da democracia? 

Vi numa madrugada desta semana uma reportagem sobre as Crianças do Iraque..

É assustador o número de crianças internadas em hospitais, vítimas de leucemia - cancro no sangue, provocado em grande medida pelo urânio presente no ar que respiram..
E que morrem todos os dias..



Haviam de ver o desespero nos apelos das mães, que pediam à jornalista francesa que fazia a reportagem, no sentido de alertar as entidades que podem ajudar com medicamentos, e assim evitar que todos os dias continuem a morrer meninos por falta de assistência médica..



As crianças do Iraque com idade inferior a dezoito anos, representam quase cinquenta por cento do total da população!
Estão na sua esmagadora maioria vulneráveis!
Cerca de vinte por cento sofre de sub-nutrição.
Uma em cada oito morre antes de completar os cinco anos de idade..
Ou seja, cerca de cinco mil crianças por mês..
Mais de meio milhão morreu durante a última década.



It is very late, but never too late to open the door of hope..

Alguém terá dito isto?


Read more!

novembro 20, 2004

O dia seguinte 

Ron Carter - Foursight

Concerto esgotado!
Os quatro elementos da banda entram em palco com uma flôr branca nas mãos..
O jazz de Ron Carter parece resistir ao tempo e aos movimentos estéticos que se têm desenvolvido ao longo dos anos, sem concessões, mantendo a pureza da sua música e do seu estilo.
Magistralmente, o contrabaixo marca o ritmo durante todo o espectáculo, que os restantes elementos vão seguindo com precisão, com Payton Crossley mais discreto na bateria.
Destaque para Steven Kroon - percussão, que polvilha a sala com elementos de bossa nova durante hora e meia, num registo de grande execução.
Stephen Scott tem neste concerto alguns momentos de grande harmonia e beleza ao piano, e por breve instantes os seus esgares fazem recordar o mestre Keith Jarrett.
Uma noite em cheio!

Etiquetas: ,


Read more!

novembro 19, 2004

Jazz como presente 

Hoje o serão vai ser passado em Guimarães com o meu amigo Alberto e o nosso amigo comum Ronnie


Mas antes disso, temos que tratar de nós...
Sim, porque a gente do nuorte trata-se bem...

Mais logo, vamos à Universidade do Minho ouvir o quarteto de Ron Carter, o contrabaixista que mais discos gravou até hoje, e que também fez parte do quinteto de Miles Davis...
Enfim, não tenho dúvidas de que teremos uma noite bem passada..

Etiquetas: ,


Read more!

novembro 18, 2004

O solipsista 

Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.

Deixa-te de histórias
Some-te daqui!


Vinicius de Moraes



e leva contigo o céu e as estrelas.
estou farto do ruído do mundo
deixa-me só ouvir o teu canto sem letra
a música no vazio sem fundo.

Read more!

novembro 16, 2004

scriptorium  


Posted by Hello
Christ and Jesus Sirach

Contributo possível para o projecto "A Bíblia Manuscrita" !

Esta belíssima iluminura, representada no Livro de Eclesiastes, contém passagens do texto sobre a excelência do ensino e da sabedoria, como factores principais do protesto contra o determinismo.

O Livro é um exemplo bom de literatura sábia!

Vale a pena abrir a imagem e observar a minúcia e dedicação colocadas na elaboração destes textos!


Read more!

novembro 15, 2004

bem me parecia que ali havia gato... 

Afinal...
marcam.. marcam, marcam.. marcam, marcam.. marcam...!
( tinha de escrever seis vezes, não é verdade?!)
e a quem?!
então o Boavista esteve ausente?!
Quer dizer... em lugar da Pantera, mandaram uns quantos abichanados?
Isto é fraude!
Assim.. também eu marcava 12 ou 13... ou menos! Eça é que é Eça!
Bom!
Durante uns dias não quero ouvir falar de futebol, que ainda se me rebenta o ego!

Etiquetas:


Read more!

Impressões do XXVI Congresso do PPD-PSD.. 



No Congresso, Pedro Santana Lopes pediu paciência a todos porque
os resultados, para serem sólidos, demoram tempo a aparecer.

Os rapazes entenderam a mensagem como um incentivo...

Ah!, já me esquecia... ficámos a saber de mais uma prova de transparência do Executivo...
O próximo Orçamento será apresentado em acetato!


Read more!

novembro 14, 2004

Purificação da alma 

Depois de ter sido preso e os seus desenhos eróticos com crianças terem sido queimados, o jovem Schiele, discípulo e amante de Gustav Klimt, para conseguir melhorar a sua reputação, casou-se, sendo Embrace dessa época.
Schiele e a sua também jovem mulher morreram ambos de doença no ano seguinte, com vinte e oito anos.


Posted by Hello
Egon Schiele
Embrace (Lovers II) , 1917
Oil on canvas - 100 x 170.2 cm
Galeria Osterreichische, Vienna


Read more!

novembro 13, 2004

Um dia... vou a Marte! 




Angústia

Tortura de pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar!... e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...
Querer apagar no céu - ó sonho atroz! -
O brilho duma estrela, com o vento!...

E não se apaga, não... nada se apaga!
Vem sempre rastejando com a vaga...
Vem sempre perguntando: "O que te resta?..."

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!

Florbela Espanca

Read more!

novembro 12, 2004

Viver 

O lamento em forma do poema que é a vida, percorre caminhos diversos daqueles que cruzamos, e por isso não ouvimos o seu murmúrio.. por enquanto!



Olha como é triste e mudo o mundo em que vivemos!
E andamos sós pelos caminhos.
Olhamos à volta e vemos restos.
de outros homens que num outro tempo
olharam também à volta de outros,
igualmente homens, espantados com o que à volta viam.


Poema de Carlos Lopes Pires


Read more!

novembro 11, 2004

Caro Pai Natal: 

Embora estejamos a mês e meio de concretizar o nosso acordo anual, considero ser oportuno deixar já a minha lista.. modesta, como sempre!

Por via da boa notícia que tivemos nos últimos dias, decorrente das eleições nos Eua - a penalização do dólar, é de interesse mútuo que lhe endereço o seguinte pedido:



Envie-me imediatamente uma meia extra-large cheia de papelinhos verdes, pois não é de descurar uma recuperação, em particular se os próximos dias contribuírem para afastar o actual cenário relativamente à economia dos EUA.

Assim, O Pai Natal efectua uma excelente transacção, e dentro de algumas semanas, quando retomar a apetência pelo dólar, eu poderei diminuir o défice orçamental, de modo a poder efectuar os investimentos que tenho em perspectiva - as prendinhas!


Read more!

novembro 10, 2004

Sexo "Bruto" 

Aqui, as imagens de Prohibited, de Luis Royo, estão nuas e deslocadas do acto que representam.



A sexualidade está em bruto, desprovida do seu sentido na obra..
Sem a envolvência de tons e acabamentos..
Como se tivesse sido substituída a luz suave das velas por um flash frio que deixa as imagens sem sombras, ou, melhor dito, sem obscuras intenções.



Etiquetas:


Read more!

novembro 09, 2004

O ADN da blogosfera 


Posted by Hello
Topologia da blogosfera, ou: What are you doing to my net?
Existe uma imensidão de endereços ip que partilham redes próximas, que interagem..
e que no entanto.. não se tocam!
Mesmo os que perdem luminosidade... não desaparecem do mapa!


Posted by Hello
Exemplo de blog e suas betweenness, ou: Brother, where are you?
Haverá aqui sinais da Expansão do Universo?


Read more!

novembro 08, 2004

Volúpia 



No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade..
A nuvem que arrastou o vento norte..
Meu corpo!
Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço..
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças..


Florbela Espanca

Read more!

novembro 07, 2004

Para que não esqueçamos 

Lest We Forget, The Best of Marilyn Manson

Esta Edição Especial contém ainda um dvd com mais de uma hora de clips..
Inquietante, Obsceno, O Senhor do Mal não deixa ninguém indiferente!
Poderosíssimo!
Obrigatório no género!
Para ser Possuído antes do Natal!




1.The Love Song
2.Personal Jesus
3.mOBSCENE
4.The Fight Song
5.Tainted Love
6.The Dope Show
7.This Is the New Shit
8.Disposable Teens
9.Sweet Dreams (are made of this)
10.Lunchbox
11.Tourniquet
12.Rock Is Dead
13.Get Your Gunn
14.The Nobodies
15.Long Hard Road Out Of Hell
16.The Beautiful People
17.The Reflecting God
18.(s)Aint

The Reflecting God
Your world is an ashtray
We burn and coil like cigarettes
The more you cry your ashes turn to mud
It's the nature of the leeches, the virgin's feeling cheated
You've only spent a second of your life
My world is unaffected, there is an exit here
I say it is and then it's true
There is a dream inside a dream
I'm wide awake the more I sleep
You'll understand when I'm dead
I went to god just to see, and I was looking at me
Saw heaven and hell were lies
When I'm god everybody dies
Scar/can you feel my power
Shoot here and the world gets smaller
Scar/scar/can you feel my power
One shot and the world gets smaller
Let's jump upon the sharp swords
And cut away our smiles
Without the threat of death
There's no reason to live at all
My world is unaffected, there is an exit here
I say it is and then it's true
I'm wide awake the more I sleep
You'll understand when I'm dead
"Each thing I show you is a piece of my death"
Shoot, shoot, shoot motherfucker
No salvation, no forgiveness
"This is beyond your experience"
Forgiveness...


Read more!

São todos bons rapazes! 

Estreou hoje na Sic Notícias O Eixo do Mal, um programa semanal de debate sobre actualidade.
Três dos membros do painel são meus vizinhos, e por isso, de momento, vou ser simpático para com eles.
É um programa desalinhado, divertido, sem deixar de ser acutilante - esperava que fossem mais... mas também pareciam acusar a responsabilidade da estreia, compreende-se!
O registo mais interessante - pela amostra de hoje, é que grande parte dos temas analisados pelos colunistas chegam à televisão depois de os terem dissecado nos blogs, o que não deixa de ser curioso!
Sinais dos tempos?!
A CFA bem dizia "que jeito dá ter um blog"!


Posted by Hello


Read more!

novembro 05, 2004

Labirintos 


Posted by Hello

Aprender com a natureza a descobrir a individualidade, independentemente das mutações nela operadas, é um exercício que pode conduzir à perda da própria consciência.
Mas o que é a realidade?


XXVIII - Li hoje

Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.


Alberto Caeiro - O guardador de rebanhos
in poesias escolhidas por Eugénio de Andrade


Read more!

novembro 04, 2004

Luis Figo 

10 de Junho de 1995.
Após a vitória do Sporting na Final da Taça frente ao Marítimo por 2-0, Portugal vestiu-se de verde e branco.

A festa prolongou-se pela noite dentro.
A dada altura, apareceu nas Docas de Alcântara com alguns amigos.. o Luis Figo!
Por entre abraços de parabéns, o motivo principal dos copos tinha a ver com um momento especial na vida do Luis: o último jogo pelo Sporting e o início da sua aventura no estrangeiro, logo num colosso do futebol europeu, o FC Barcelona!

Tive somente ocasião de trocar um sorriso e desejar-lhe felicidades!
Esse dia, recordo-o frequentemente, desde então! Quando vejo o Luis com a camisola da Selecção Nacional - que não deve voltar a vestir, ou pelos clubes que representou em Espanha, primeiro o Barça e agora o Madrid!

Hoje, no 32º aniversário do Luis Figo, o jornal A Bola publica uma extensa entrevista, da qual aqui ficam alguns registos.
Gravada na Embaixada Portuguesa em Madrid, onde, depois de quase uma década a viver em Espanha, Luis nunca tinha entrado. É curioso!

É esta a minha homenagem ao Luis, um dos símbolos nacionais de que nos devemos orgulhar!
Parabéns, Luis!




A um mês do futuro!
Luís Figo completa hoje 32 anos de idade. É um símbolo ímpar de português de sucesso. Em toda a parte do mundo o nome de Portugal se confunde com o de Figo e há uma juventude imensa e intensa por todos os cantos da Terra que o idolatra. Casado com Helen Svedin, uma bonita modelo de nacionalidade sueca, pai de duas filhas (a terceira deverá chegar no início de Dezembro), Daniela e Martina, chegou a Barcelona há 10 anos. «O nível competitivo do futebol em Espanha e o estilo de vida deste país ajudaram a moldar o meu carácter» — confessaria, uma vez, numa das suas muitas e sempre coerentes entrevistas.

Aos 32 anos, com um riquíssimo e muito invejável palmarés desportivo, Luís Figo sabe que está no limiar de um ponto decisivo de mudança. Anunciou um interregno, que será, certamente, definitivo, da Selecção Nacional, onde atingiu, com Fernando Couto, o recorde de internacionalizações (110 !), e acaba de ouvir da boca dos responsáveis do Real Madrid a intenção de não renovar o contrato, que termina no final da época de 2005/06 (dentro de ano e meio). Luís Figo prepara-se, assim, serenamente, para decidir dos últimos anos da sua fantástica carreira e do seu futuro, para lá do futebol.

Recordar Valdano
Madrid. A cidade intensa, num trânsito nervoso. Arrefece, neste Inverno que já se anuncia. À porta de um conhecido restaurante, no Paseo de La Castellana, Luís Figo, fato Armani da sua predilecção, mantém um sorriso aberto na distribuição infindável de autógrafos aos jovens que o reconhecem e o rodeiam. Há uma intimidade juvenil e irreverente nos miúdos espanhóis. Tratam-no por Luís e por tu, numa informalidade que aproxima.
Não será assim por muitos mais anos e Luís Figo parece sentir prazer neste estatuto de herói vivo de tanta gente. É cedo para abordar a nostalgia mas vale a pena lembrar Valdano quando disse: «A partir dos 30 anos o fim pode chegar a qualquer momento e cada um compensa como pode a dor de não jogar.»

— Luís, como vai ser esta ponta final anunciada de uma carreira tão brilhante?
— Não sei como vai ser mas admito que se tivesse 25 anos não me importaria com isso o que me importo agora. Tenho mais um ano e seis meses de contrato e tenho 32 anos. Sei que está a chegar o momento de tomar decisões.

Primeira opção é ficar em Madrid
— Sair do Real Madrid é certo...
— Durante o mês de Dezembro falarei com o Real Madrid para saber o que realmente pensa e explicarei, igualmente, a minha posição.
— Qual é a sua posição?
— Tenho a minha posição muito clara na minha cabeça mas a prioridade é a de saber, quanto antes, o que o Real Madrid deseja de mim. Não posso decidir, apenas, por aquilo que quero, ou desejo. Tenho uma família e tenho de pensar e decidir em função dela.
— Que vai dizer aos responsáveis do Real? Que quer, finalmente, ir para Inglaterra?
— Serão eles a saber primeiro mas serei franco e honesto, como sempre fui. O meu contrato termina em 2006 mas terei, nessa altura, 33 anos. Serão manifestamente diferentes as oportunidades e o tipo de contrato que poderei fazer no final desta época ou o que poderei fazer dentro de mais um ano e meio...
— E se o Real Madrid admitisse prolongar-lhe o contrato por mais um ano, até 2007, isso agradava-lhe?
— É apenas uma suposição. É verdade que o clube tem procedido assim com muitos outros jogadores mas a mim ainda não me disse nada. Se acontecesse, claro que me agradava, porque a primeira opção é ficarem Madrid. Se o clube não pensar assim, pois que me dê oportunidade para decidir o melhor possível do meu futuro.

A força das mulheres
— Às vezes, pensando de si para si, não sente que, depois de tudo o que fez no Real Madrid e depois de ter sido o primeiro símbolo do sucesso da era galáctica, o clube foi um tanto ou quanto cruel para consigo?
— Sinceramente, nunca foi do meu género fazer juízos sobre as decisões de outros . Cada um tem as suas razões para decidir como acha que deve decidir para um melhor futuro...
— Futuro que, cada vez menos, deverá passar pelo famigerado regresso ao Sporting?
— Nunca escondi que gostaria de regressar ao Sporting, onde me sinto particularmente acarinhado, mas a vida não me tem dado essa oportunidade e também os sportinguistas sabem que nunca regressaria, sem estar nas melhores condições, só para terminar a carreira. Não seria honesto com quem tantas provas me tem dado de carinho e admiração. No entanto, nunca se sabe o que pode acontecer no futuro. Um dia, mesmo que seja depois de terminar a minha carreira de futebolista, desejarei regressar a Portugal e, de repente, o Sporting até poderá estar no caminho. É imprevisível.
— Pelo menos ficamos a saber que pensa voltar a viver em Portugal...
— Pensar, penso. É, naturalmente, o meu desejo, mas não tenho a certeza de que será assim. Eu e a minha mulher vivemos em Espanha há 10 anos, temos cá os nossos amigos, a nossa vida, e as nossas filhas sempre viveram neste país. Sei que desejo regressar mas não quero nem posso ser egoísta. A seu tempo tudo se decidirá e, não se esqueça, as mulheres mandam sempre muito...


Ao meu país nunca direi nunca mais!
Não há sinais de arrependimento da decisão tomada quanto à pausa na Selecção Nacional. Nem, tão-pouco, sinais de nostalgia. Luís Figo não quer, porém, reconhecer que fica por aqui. Deixa uma margem mínima que o separa da impossibilidade de algum dia voltar mas todo o discurso nos leva a concluir que não voltará.
No entanto, se o pressionamos e lhe pedimos que assuma, em definitivo, esse adeus anunciado, recusa dizer que acabou e deixa uma justificação que, em boa verdade, nos desarma: «Sabe, eu amo o meu país e por isso ao meu país e à minha família nunca serei capaz de dizer não, nunca serei capaz de dizer nunca mais.»

Percebe-se que tem tudo a ver com questões de princípio. Figo sabe que só voltará se lhe pedirem para voltar e se sentir que isso faz sentido. Tanto ele como nós sabemos que estamos a falar de algo muito improvável.

— Quando vê jogar a Selecção não sente que a sua decisão foi prematura?
— Acho, sinceramente, que foi uma boa decisão e tomada na altura certa. Uma decisão natural, depois do desgaste de muitos e muitos anos e mantendo-me eu, aos 32 anos, num nível de exigência muito elevado no Real Madrid. Tenho aproveitado o tempo de paragem para os jogos das selecções para descansar e para estar mais perto da minha família.
— Viu os dois últimos jogos, com o Liechtenstein e com a Rússia?
— Vi só o jogo com a Rússia e gostei do que vi. Foi um jogo raro em que fizemos golo sempre que atirámos à baliza.
— Em compensação, aquele empate...
— Há sempre um dia mau. Na Selecção nem sequer é estranho. É da tradição fazermos grandes resultados contra grandes equipas e resultados menos bons contra pequenas equipas.
— Quando estava a ver o jogo com a Rússia não lhe apeteceu estar lá dentro?
— Acho que é da minha personalidade. Quando tomo uma decisão nunca a lamento. Por isso a resposta à pergunta é não, não lamento. O que não implica que sempre que jogue a Selecção Nacional não continue a identificar-me com a equipa.
— Diz que foram muitos anos de desgaste. Foi, portanto, uma questão de cansaço...
— Diria, antes, de saturação.
— Saturação de jogar?
— Não, saturação de ser sempre responsabilizado por tudo o que de mau acontecia nos piores momentos. Era sempre visto como um género de cabeça-de-turco. A partir de certa altura comecei a achar que não valia a pena tanto sacrifício, tanta dedicação. Não fazia sentido.
— Aquele episódio na Suécia, em que deu a cara numa reivindicação de toda a equipa, foi decisivo?
— Foi apenas um caso. Fiz o que fiz em nome da equipa e não em nome individual; mas confesso que há coisas que me revoltam imenso...
— A questão das promessas por cumprir...
— Não podes dar a tua palavra e não cumprir com o que prometes. Poucas coisas me revoltam mais que isso...
— Mas essa tal saturação não dava, ao menos, para mais um jogo e para bater o recorde de internacionalizações? Assim ficou com os mesmos jogos que Fernando Couto...
— Nunca joguei na Selecção para andar a bater recordes de internacionalizações, ou de golos, ou do que quer que seja, e muito menos em competição com os meus melhores amigos. A minha relação com o Fernando é de irmão.
— E a sua relação com Scolari?
— É uma óptima relação.
— Falou com ele quando decidiu esta pausa na Selecção?
— Claro que falei com ele. Tenho respeito e admiração pelo mister. Como treinador e também como pessoa.
— E tem esperança nesta Selecção?
— Portugal está no bom caminho. Tem um treinador fantástico e tem um grupo de jogadores jovens de grande qualidade.
— Já conhecia Scolari?
— Não o conhecia mas fiquei muito bem impressionado. Cultiva boas relações com os jogadores, é frontal, como eu, tem espírito ganhador e sabe dar muito valor à força da coesão do grupo de trabalho.
— Quando o Rui Costa anunciou também o adeus à Selecção foi para si uma surpresa ou sabia o que se ia passar?
— Não foi surpresa, não. Eu e o Rui somos grandes amigos, de há muito tempo, e a verdade é que tínhamos falado bastante sobre este assunto. Eu sabia já que ele ia abandonar e sabia que, tal como eu, ele também se sentia desgastado.
— Vejamos se entendemos claro. Tanto no seu caso como no de Rui Costa pode dizer-se que este abandono tem muito a ver com o facto de se sentirem algo injustiçados ou incompreendidos pelo esforço e pelos sacrifícios feitos em prol da Selecção Nacional?
— Não diria incompreensão ou injustiça mas é verdade que sempre que surgiam situações menos agradáveis na Selecção as responsabilidades eram imputadas a três ou quatro jogadores mais velhos. Acontece uma, duas, três, quatro vezes, o desgaste vai-se acumulando, mas não se pode dizer que essa tivesse sido a razão fundamental. Mesmo assim, chega um momento em que pesamos se vale a pena o sacrifício.
— Falou de um grupo jovem, de qualidade, que vos sucede. Acha que lhes conseguiram transmitir algo de especial?
— O melhor que lhes transmitimos foi a importância para a Selecção do espírito de grupo. Por isso todos eles, sem excepção, foram sempre muito bem recebidos pelos mais velhos.
— Mesmo no caso de Deco, apesar da naturalização...
— O Deco foi muito bem recebido, como todos, e se disser o contrário mente.


Não perdi uma final, perdi toda uma carreira
É possível que os portugueses jamais esqueçam a final do Europeu. Mas uns não deixarão de sofrer mais que outros sempre que o cabeceamento de Charisteas, colocando a bola no fundo da baliza de Portugal, lhes aflore o pensamento.
Figo, por razões óbvias, é um dos que se mostram incapazes de disfarçar a tristeza, a desilusão, por a vitória no Europeu ter sido desviada para a Grécia. Uma perda que, confessa, para si é irreparável.

A final do Europeu que os portugueses desejavam ter festejado em apoteose mas que acabou por ter gregos a comemorá-la talvez tenha sido o tema que Figo mostrou mais dificuldade em abordar. Percebe-se porquê.

— Porque um profissional de futebol reage aos bons e maus momentos como qualquer outro ser humano, como é que se sentiu depois de ter acabado a final?
— O que é que eu senti?... Senti que tinha perdido um momento único, uma oportunidade que não se vai repetir.
— A de Portugal estar outra vez na final de um Europeu? É que este foi em casa...
— Portugal pode chegar a outra final de um Europeu ou de um Mundial, quando digo que se tratou de uma oportunidade que não se vai repetir estou a dizê-lo em termos pessoais.Em90 minutos não perdi uma final, perdi toda uma carreira que fiz na Selecção principal do meu país. Lutei durante mais de uma década para poder orgulhar-me de ter ganho um Europeu ou um Mundial e vou acabar a minha carreira sem ter atingido esse objectivo tão importante para mim.

Europeu em crescendo
— Sofreu uma grande decepção?
— Igual à de todos os portugueses. Tivemos, ao longo de todo o Europeu, um país inteiro a apoiar-nos, a incentivar-nos, mesmo nos momentos mais complicados para a Selecção Nacional, sempre a empurrar-nos para a vitória, sempre a confiar em nós, portanto, quando atingimos a final, naturalmente que nem um único português admitia que o nome de Portugal não passasse a constar da lista dos vencedores do Europeu.
— Quando é que o grupo de trabalho sentiu pela primeira vez que podia chegar à final?
— Portugal realizou um Europeu em crescendo, no que à condição física diz respeito, e isso foi muito importante para nós. Depois do jogo com a Espanha, um jogo vital para as nossas aspirações, tivemos consciência de que podíamos chegar longe, até ganhar a final. Seguiram-se os jogos a eliminar, ou seja, aí, caso falhássemos, já não podíamos recuperar, mas com um país inteiro a apoiar-nos também tínhamos consciência de que muito dificilmente não chegaríamos à final.
— Portugal a jogar em casa, um país mobilizado no apoio à sua Selecção, não acha que outra ocasião assim dificilmente voltará a acontecer?
— Ter todos os factores reunidos a nossa favor... não, acho que Portugal não volta a ter uma oportunidade destas. O que não quer dizer, repito, que não possa chegar à final de um Europeu ou de um Mundial organizado noutro país.

Jogar para ganhar
— Agora que já passou um tempo significativo sobre esse jogo, pode dizer quais foram as razões que proporcionaram a vitória da Grécia?
— Não conseguimos ganhar, só isso.
— Portugal perdeu com a Grécia no jogo de abertura, meses antes, em jogo de preparação, já tinham empatado, depois viu-se como os gregos eliminaram a França e a República Checa e não se encontrou uma estratégia para a derrotar...
— Portugal não podia entrar no jogo como a Grécia o fez, que foi para não perder. Era mesmo o que faltava a Selecção Nacional entrar numa final de um Europeu organizado por Portugal com uma táctica defensiva, para não perder, repito, Portugal só podia jogar para ganhar, já chegava a Grécia com o seu sistema defensivo na esperança de um golo lhe cair do céu. O que é que poderia ter acontecido se as duas selecções tivessem optado por jogar para não perder? Portugal jogar à defesa, nessa final? Impensável!
— Mas tornou-se funesta a forma como Portugal jogou, sabendo que a Grécia não dava mais que aquilo...
— Sabíamos que era fundamental para nós marcar primeiro, o que podia significar para as nossas aspirações estarmos em vantagem no marcador, mas, infelizmente para nós, isso não aconteceu, felicidade para eles, que conseguiram um golo num lance de bola parada. É futebol...

Dívida por pagar
— Quando sofreram o golo sentiram que o jogo estava arrumado?
— Volto a dizer: pela forma como a Grécia estava a jogar tínhamos perfeita consciência de que era importantíssimo para nós marcar primeiro, como também não desconhecíamos, bem pelo contrário, que, se fosse ela a fazê-lo, tudo ficaria mais complicado para nós.
— A frustração dos portugueses é ainda maior quando se sabe que a Grécia, em três jogos da fase de apuramento para o Mundial, nem uma vitória tem, até perdeu com a Albânia...
— Uma competição nada tem a ver coma outra. No Europeu a Grécia conseguiu chegar à final, ganhou-a. Queríamos estar no lugar dela, não conseguimos. Foi uma oportunidade única. Mas ninguém lamenta mais que nós, jogadores.
— Essa dívida já não consegue o Figo pagá-la aos portugueses?
— Infelizmente, não.


Servir o Sporting, nunca servir-me dele
O Sporting é tema obrigatório de qualquer entrevista com Figo. Embora se mostre invariavelmente avesso a falar do futuro, reconhece no entanto ser-lhe muito difícil regressar a Alvalade como jogador. Mas, ainda assim, não fecha a porta à possibilidade de voltar à casa que o viu crescer para o futebol para desempenhar outras funções. Uma certeza, porém, deixa expressa: se regressar ao Sporting é para o servir e nunca para se servir dele.

Não sorri facilmente mas a satisfação aparece quase sempre a iluminar-lhe o rosto quando fala do Sporting.
— Começa a desenhar-se mais nitidamente a impossibilidade de regressar ao Sporting como jogador...
— Ninguém conhece o futuro.
— Mas, neste momento, é essa a ideia, porque tem 32 anos de idade, mais ano e meio de contrato com o Real Madrid, e, ao que parece, outro projecto em estudo, o qual não passará por Portugal.
— Colocada a questão dessa maneira...
— Se já não for possível o regresso como jogador, admite fazê-lo para desempenhar outras funções?
— Outras funções?
— Em Julho último, por ocasião do jogo All Stars, Tomás Aires, antigo vice-presidente do clube, afirmou-nos que o Figo podia ser um excelente presidente para o Sporting. É possível?
— Neste momento não.
— E quando terminar a sua carreira de jogador?
— Uma coisa tenho muito clara para mim: só regressarei ao Sporting se for uma mais-valia para o clube, regressarei apenas na condição de o poder servir, nunca para me servir dele. Mas não sei qual vai ser o meu futuro.
— E a sua experiência ao mais alto nível no mundo do futebol certamente seria muito importante para o Sporting. Não tem essa opinião?
— Talvez, talvez...
— Enveredar pela carreira de treinador já disse que nunca, mas quanto a continuar no futebol, desempenhando outras funções, aí não diz o mesmo?
— Não, claro que não. Vejo-me mais como um executivo que propriamente sentado no banco a dirigir uma equipa.
— Portanto, será mais provável o regresso a Alvalade como dirigente que como jogador?
— Se tivermos em atenção como as coisas estão a acontecer e o que tenho intenção de ainda vir a fazer como jogador, se calhar o meu regresso ao Sporting será mais provável noutra função que não naquela que agora desempenho.
— Um dado parece indesmentível: os sportinguistas nunca esconderam o desejo de vê-lo de novo no clube.
— E eu nunca fechei as portas ao meu regresso ao Sporting. Vamos ver o que o futuro nos reserva.


Etiquetas:


Read more!

This page is powered by Blogger. Isn't yours?