fevereiro 11, 2008
O nono soneto
Quando a foder aprendeste, ensinei-te
A foder, tal que de mim esquecesses
E teu prazer do meu prato comesses
Como se amor fosse, não eu, o teu deleite.
Disse-te: mal não faz, quando me esqueces
Como se doutro te viesse o derriço!
Eu não me dou a mim, dou-te é um piço
Não é por ser meu que te traz benesses.
Se bem pretendia que te metesses
Na própria pele, não era nada a intenção
Que numa te tornasses, que não pondera
Quando, por acaso, um lhe está à mão.
Queria que de mil homens não carecesses
Para saberes o que do homem te espera.
Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso
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dezembro 17, 2007
demonstração do resultado do exercício
seguido de tradução de José Bento in "Antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Século XIX"
Gravura de José de Ribera: São Jerónimo e o Anjo, 1626
tantas obscuras noches mal dormidas;
después de tantas quejas repetidas,
tantos suspiros tristes derramados;
Después de tantos gustos mal logrados
y tantas Justas penas merecidas;
después de tantas lágrimas perdidas
y tantos pasos sin concierto dados,
Sólo se queda entre las manos mías
de un engaño tan vil conocimiento,
acompañado de esperanzas frías.
Y vengo a conocer que en el contento
del mundo, compra el Alma en tales días,
con gran trabajo, su arrepentimiento.

tantas escuras noites mal dormidas;
depois de tantas queixas repetidas,
tantos suspiros tristes derramados;
depois de tantos gozos malogrados
e tantas justas penas merecidas;
depois de tantas lágrimas perdidas,
de tantos passos sem acerto dados,
resta apenas em minhas mãos esguias
de um engano tão vil conhecimento,
acompanhado de esperanças frias.
E sei enfim que, no contentamento
do mundo, a alma compra nesses dias,
com grande esforço, seu arrependimento.
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dezembro 12, 2007
Felizmente há Luar...

Da minha cegueira branca
Vejo uma imagem no negrume da noite.
Esforço-me, desinteressadamente,
por lhe dar um nome.
Todos os nomes são iguais
às imagens que vejo à noite.
Tudo é igual a nada.
Amanhece, agora. Quase me esqueço!
Como te chamas,
Imagem que não conheço?
Não me peças para lembrar,
Adormeço.
imagem: Moritz von Schwind - Adeus ao Amanhecer, 1859
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dezembro 02, 2007
Estudo sobre o Belo e o Grotesco

como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.
Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.
Seu peito como um fogo de duas chamas
ardia em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.
Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.
gravura Sleeping Nymph and Shepherd - 1645-50, de Jan-Gerritsz-van-Bronchorst
poema Angela Adonica, de Pablo Neruda
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novembro 26, 2007
à la recherche du temps perdu...
Mas, mesmo que no passado o arco do amor tenha sido quebrado , Cupido continua a possuir as setas que o farão estremecer de novo.
Peut-être il a fallu que le temps se perde... Peut-être faut-il respecter le temps qui a voulu se perdre… Le passé ne peut pas se récupérer. Le présent cesse de l’être à tout instant… Le futur c’est le seul temps qui reste... même s’il n’est pas, puisque quand on y arrive c’est déjà présent...
Bonjour, Marie...
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outubro 02, 2007
Se as minhas mãos pudessem desfolhar...

Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.
Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.
Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!
Yo pronuncio tu nombreen las noches oscuras,
cuando vienen los astros
a beber en la luna
y duermen los ramajes
de las frondas ocultas.
Y yo me siento hueco
de pasión y de música.
Loco reloj que canta
muertas horas antiguas.
Yo pronuncio tu nombre,
en esta noche oscura,
y tu nombre me suena
más lejano que nunca.
Más lejano que todas las estrellas
y más doliente que la mansa lluvia.
¿Te querré como entonces
alguna vez? ¿Qué culpa
tiene mi corazón?
Si la niebla se esfuma,
¿qué otra pasión me espera?
¿Será tranquila y pura?
¡¡Si mis dedos pudieran
deshojar a la luna!!
poema de Federico García Lorca
gravuras de Caspar David Friedrich
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setembro 22, 2007
sobre o Belo e Sublime

Honrai as mulheres! Elas entrançam e tecem
Rosas sublimes na vida terrena,
Entrançam do amor o venturoso laço
E, através do véu casto das Graças,
Alimentam, vigilantes, o fogo eterno
De sentimentos mais belos, com mão sagrada.
Nos limites eternos da Verdade, o homem
Vagueia sem cessar, na sua rebeldia,
Impelido por pensamentos inquietos,
Precipita-se no oceano da sua fantasia.
Com avidez agarra o longe,
Seu coração jamais conhece a calma,
Incessante, em estrelas distantes,
Busca a imagem do seu sonho.
Mas, com olhares de encanto e fascínio,
As mulheres chamam a si o fugitivo,
Trazendo-o a mais avisados caminhos.
Na mais modesta cabana materna
Foram deixadas, com modos mais brandos,
As filhas fiéis da Natureza piedosa.
Adverso é o esforço do homem,
Com força desmesurada,
Sem paragem nem descanso,
Atravessa o rebelde a sua vida.
Logo destrói tudo o que alcança;
Jamais termina o seu desejo de luta.
Jamais, como cabeça da Hidra,
Eternamente cai e se renova.
Mas, felizes, entre mais calmos rumores,
Irrompem as mulheres, num instante de flores,
Propiciando zelo e cuidadoso amor,
Mais livres, no seu concertado agir,
Mais propensas que o homem à sabedoria
E ao círculo infindável da poesia.
Severo, orgulhoso, autárcico,
O peito frio do homem não conhece
Efusivo coração que a outro se ajuste,
Nem o amor, deleite dos deuses,
Das almas desconhece a permuta,
Às lágrimas não se entrega nunca,
A própria luta pela vida tempera
Com mais rudeza ainda a sua força.
Mas, como que tocada ao de leve pelo Zéfiro,
Célere, a harpa eólica estremece,
Tal é a alma sensível da mulher.
Com angustiada ternura, perante o sofrimento,
O seu seio amoroso vibra, nos seus olhos
Brilham pérolas de orvalho sublime.
Nos reinos do poder masculino,
Vence, por direito, a força,
Pela espada se impõe o cita
E escravo se torna o persa,
Esgrimem-se entre si, em fúria,
Ambições selvagens, rudes,
E a voz rouca de Éris domina,
Quando a Cárite se põe em fuga.
Porém, com modos brandos e persuasivos,
As mulheres conduzem o ceptro dos costumes,
Acalmam a discórdia que, raivosa, se inflama,
Às forças hostis que se odeiam
Ensinam a maneira de ser harmoniosa,
E reúnem o que no eterno se derrama.
Tradução de Maria do Sameiro Barroso
do original «Würde der Frauen» de Johann Christoph Friedrich von Schiller
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julho 31, 2007
Tu és a minha música. A maior e a mais bela de todas.
Entre os teus lábiosé que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.
Gravura "O Violoncelista" de Amedeo Modigliani
poema de Eugénio de Andrade
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julho 25, 2007
Fall of the Damned
Hoje às 18:00, no Museu Nacional de Arte Antiga
Proveniência conventual desconhecida
É a mais antiga representação autónoma do Inferno na pintura portuguesa. Obra misteriosa e inquietante, a sua iconografia incorpora, pelo menos, dois aspectos inovadores no contexto da arte portuguesa do início do século XVI. Por um lado, a evidência na representação da nudez feminina, bem exemplificada nos três corpos dependurados que devem simbolizar a Vaidade e a Soberba, ou no impositivo casal enlaçado que no primeiro plano, à direita, personifica a Luxúria. Por outro lado, o modo como se figura o entronizado regente desta infernal morada, um Lúcifer de rosto oculto por máscara, ceptro em forma de trompa e envergando toucado e fato de coloridas plumas, vestimenta que tem suscitado a hipótese de se tratar de um atributo de identidade ameríndia ou mesmo brasileira (o que possivelmente significaria encarar o recém-descoberto indígena sul-americano não como um “bom selvagem” mas como uma personificação do Mal).
A pintura recorre a um reportório medieval de referências teológicas cristãs, propondo uma imagem do Inferno como inventário de torturas incessantes, lugar de suplício e condenação eterna dos que incorrem nos Pecados Capitais, sem distinção do seu estado ou condição social. Para além dos já indicados, identificam-se ainda, do lado esquerdo da composição, as penas infligidas pela Avareza (o avarento é obrigado a engolir moedas, cruzados portugueses do reinado de D. Manuel) e as que respeitam à Gula, réprobo a quem um diabo, com aspecto de bode, obriga a ingerir vinho vertido de um odre em forma de porco. O exacto sentido moralizante de outros suplícios, na sua provável relação com os sete pecados capitais, é, porém, mais dubitativa. Assim sucede com um motivo central da representação, um grande caldeirão onde penam cinco pecadores, dois deles tonsurados, prefigurando possivelmente a Inveja. Neste caldeirão, que replica a forma circular da “boca” do inferno por onde caem os condenados, destaca-se um frade franciscano que parece aceitar melancolicamente o suplício, o único que nesta concentrada e tumultuosa composição surge indiferente ao diabólico vórtice, de trevas e chamas, que o rodeia.
A pintura só está documentada a partir de meados do século XIX, no acervo da Academia de Belas Artes de Lisboa proveniente da extinção dos conventos de frades, em 1834.
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julho 17, 2007
Amor eterno

Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza.
poema de Pablo Neruda
gravura de René Magritte
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maio 20, 2007
amor impúdico
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã, e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.
Luis Vaz de Camões - Os Lusíadas, Canto IX - 83
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maio 04, 2007
souvenir pieux

Quando, sorrindo, vais passando, e toda
Essa gente te mira cobiçosa,
És bela - e se te não comparo a rosa,
É que a rosa, bem vês, passou de moda...
Anda-me às vezes a cabeca à roda,
Atrás de ti também, flor caprichosa!
Nem pode haver, na multidão ruidosa,
Coisa mais linda, mais absurda e doida.
Mas e na intimidade e no segredo,
Quando tu coras e sorris a medo,
Que me apraz ver-te e que te adoro, flor!
E não te quero nunca tanto (ouve isto)
Como quando por ti, por mim, por Cristo, Juras
- mentindo - que me tens amor...
Intimidade, de Antero de Quental
August Macke - Dame in greuner Jacke, 1913
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março 14, 2007
«luminescências poéticas»
março 12, 2007
Paula Rego - Vanitas
No centro do seu tríptico, de braços cruzados, entre retrato em majestade e realístico auto-retrato, Paula Rego preside à cerimónia da vida entre sono onde a morte se esquece e vida que de olhos bem abertos parece disposta a "matar a morte", como Shakespeare ousou escrever. Como se a antiga panóplia das vanitas cristãs já não tivesse o poder de nos reenviar ao nosso antigo nada. É nas nossas mãos que está a folclórica foice, sem a sombra temerosa de Goya, rodeada de todos os brinquedos do nosso divertimento, indiferente ao Tempo e à sua música mortal. Como se esta humana assumpção da Morte encarnasse agora a universal indiferença com que a vivemos e já não fosse a musa suprema instalada no nosso coração no lugar de Deus, lembrando-o. Não é uma vanitas, máscara de Deus ou da sua ausência, por isso sumptuosa.
É a nossa, contemporânea-ascética, quase infantil. Talvez só agora nossa verdadeira morte. Quer dizer, vida sem transcendência.
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fevereiro 26, 2007
ânsia desmedida de mudez
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
Eugénio de Andrade
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fevereiro 25, 2007
Cadáver adiado, ou o direito a morrer a própria morte
Uma maior solidão
Lentamente se aproxima
Do meu triste coração.
Enevoa-se-me o ser
Como um olhar a cegar,
A cegar, a escurecer.
Jazo-me sem nexo, ou fim...
Tanto nada quis de nada,
Que hoje nada o quer de mim.
Fernando Pessoa
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fevereiro 19, 2007
a puta da subjectividade

Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa
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fevereiro 14, 2007
Harmonia entre o belo e o grotesco
Sur la rive du désespoir et de l’oubli
Un vieux manoir surgi au fond de nulle part
Dans un écrin lugubre où règne la magie.
Mes larmes ont usé les pierres du chemin,
Mes cris ont lézardé les puissantes murailles
La colère nourrit chacun de ces matins
Où l’âme emplie d’amour livre et perd la bataille.
Sombres couloirs bordés de vivants candélabres
Visages de granit aux inhumains regards,
Tout évoque l’enfer dans ce château macabre
Qui emmure mon cœur de ses épais remparts.
Vieux promeneur perdu dans la brume ennemie,
Tu peux te reposer quelques menus instants
J’entrouve sous tes pas mon royaume maudit
Qui dort dans un linceul, oublié des vivants.
Poema de Bernard Sellier, inspirado no filme La Belle ou la Bête, de Jean Cocteau
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janeiro 12, 2007
Marriage à-la-mode

Why should a foolish marriage vow,
Which long ago was made,
Oblige us to each other now
When passion is decay'd?
We lov'd, and we lov'd, as long as we could,
Till our love was lov'd out in us both:
But our marriage is dead, when the pleasure is fled:
'Twas pleasure first made it an oath.
If I have pleasures for a friend,
And farther love in store,
What wrong has he whose joys did end,
And who could give no more?
'Tis a madness that he should be jealous of me,
Or that I should bar him of another:
For all we can gain is to give our selves pain,
When neither can hinder the other.
Neste poema, o dramaturgo John Dryden (1631-1700) utiliza a retórica para questionar os valores morais da sociedade, que obrigam duas pessoas a permanecerem juntas quando já não existe amor.
Para ver as restantes cinco obras série satírica Marriage à-la-mode de William Hogarth (1697-1764), clicar aqui.
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janeiro 04, 2007
crime e castigo

All year the flax-dam festered in the heart
Of the townland; green and heavy headed
Flax had rotted there, weighted down by huge sods.
Daily it sweltered in the punishing sun.
Bubbles gargled delicately, bluebottles
Wove a strong gauze of sound around the smell.
There were dragon-flies, spotted butterflies,
But best of all was the warm thick slobber
Of frogspawn that grew like clotted water
In the shade of the banks. Here, every spring
I would fill jampotfuls of the jellied
Specks to range on window-sills at home,
On shelves at school, and wait and watch until
The fattening dots burst into nimble-
Swimming tadpoles. Miss Walls would tell us how
The daddy frog was called a bullfrog
And how he croaked and how the mammy frog
Laid hundreds of little eggs and this was
Frogspawn. You could tell the weather by frogs too
For they were yellow in the sun and brown
In rain.

Then one hot day when fields were rank
With cowdung in the grass the angry frogs
Invaded the flax-dam; I ducked through hedges
To a coarse croaking that I had not heard
Before. The air was thick with a bass chorus.
Right down the dam gross-bellied frogs were cocked
On sods; their loose necks pulsed like sails. Some hopped:
The slap and plop were obscene threats. Some sat
Poised like mud grenades, their blunt heads farting.
I sickened, turned, and ran. The great slime kings
Were gathered there for vengeance and I knew
That if I dipped my hand the spawn would clutch it.
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